sábado, 21 de novembro de 2009

A Vida Como Ela É

Aos poucos venho traçando o perfil de filme que mais me agrada. Sempre fui bem eclética: gosto de clássicos hollywoodianos, alternativos moderninhos, diretores consagrados como Almodóvar, Hitchcock, Bergman, Kubrick, cinema iraniano, brasileiros de baixo orçamento, brasileiros de grande orçamento, estórias leves e bem contadas como Amélie Poulain, etc.

Mas ultimamente venho desenvolvendo gosto por um determinado tipo muito específico: o que me faz mal. Não por ser ruim, óbvio, porque aí era só ficar atenta aos campeões de bilheteria e eu teria diversão garantida; mas aqueles que são excessivamente realistas ao tratar de situações-limite, que mostram o pior do ser humano. Como bem definiram os Garotos Podres, em sua música "Oi, Tudo Bem?": "a decepção de ontem, a decepção de hoje e a desesperança crônica do amanhã".

Essa preferência não é de agora. Quando era criança, meu filme preferido era "A Lista de Schindler". Não dá pra explicar o prazer que vem da angústia de saber que aquilo foi real, pensar o que eu faria, diria ou sentiria na pele daquelas pessoas. Imagino que seja a sensação que um masoquista tem ao sentir o chicote rasgando sua pele.

Hoje em dia, porém, venho me aprimorando e o filme do Spielberg fica ao lado de "Ursinhos Carinhosos" na minha escala de mal-estar. Confira minhas recomendações:

Caminho Para Guantánamo (The Road to Guantanamo, Inglaterra, 2006). Quatro jovens ingleses de descendência paquistanesa viajam ao Oriente Médio e são acusados de terrorismo. São presos pelos americanos e, após sofrerem acusações e castigos no próprio Paquistão, são levados para Guantanamo, onde permanecem por dois anos e meio tentando provar inocência. Terrivelmente, assustadoramente e dolorosamente real.

O Dia Seguinte (The Day After, EUA, 1983). O filme foi feito na época em que a expectativa de um ataque nuclear a algum dos países envolvidos na Guerra Fria era real. No filme, EUA e Rússia se atacam ao mesmo tempo com bombas atômicas de baixa potência, causando catástrofes irreparáveis nos dois países. O Dia Seguinte se passa nos EUA, mas fica longe de ser partidário na guerra: mostra o quão horrível seria - para ambas as partes - se aquela possibilidade se concretizasse. Gente vivendo em precários abrigos subterrâneos, famílias separadas, terra estéril, danos físicos de todos os tipos, e o pior de tudo: a sobrevivência das baratas.

Réquiem Para Um Sonho (Requiem For a Dream, EUA, 2000) conta a estória de quatro viciados que, como todos os viciados, vivem em função de sua droga; passam pelas piores torturas e humilhações para consegui-la e têm todas as outras áreas da sua vida esvaziadas. É inevitável que o espectador trave uma concorrência mental para eleger o mais e o menos sofrido da película - mas não há consenso.

Menção Honrosa:

Vá e Veja (Idi i Smotri, União Soviética, 1985). De longe, muito longe, o mais realista dos filmes-sofrimento. O personagem central é um menino bielorrusso que quer se aliar ao exército soviético para ajudar a derrotar o nazismo durante a Segunda Guerra. Sua família quer que ele permaneça em casa, mas ele não obedece e passa pelo mais dolorido processo de amadurecimento. A criança que interpretava o protagonista teve que ser hipnotizada para não sofrer danos psicológicos irreparáveis. O diretor viveu sua infância na guerra, e garante que aquilo é só uma tentativa frustrada de mostrar um pouquinho do que era o horror da época.

Estas são as dicas cinematográficas para quem quer passar mal no final de semana.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Feriados e Significados

Primeiro feriado em sexta-feira desde que comecei a trabalhar na clínica, em maio. Êêê! Matei a saudade de ver A Grande Família inteiro (apesar que o capítulo de ontem não foi incrível) e ir à feira.

Esse é um dos poucos feriados que têm razão de ser. Vejamos:

- Sexta-feira da Paixão e Corpus Christi - feriado católico em estado laico (???);
- 12 de Outubro: Dia de Nossa Senhora - idem.
- 25 de Dezembro: Natal - idem.
- 9 de Julho: Revolução Constitucionalista - Só São Paulo comemora a guerra que perdeu.
- 7 de Setembro: Independência - quando meia dúzia decidiu que ter o Brasil como colônia não era mais lucrativo...

e por aí vai.

Acho um avanço importante a substituição daquele feriado inútil de 13 de maio (a tal da Lei Áurea que não significou mudança nenhuma na vida do negro) pelo aniversário de morte de Zumbi: tirou o negro da posição de coitadinho que espera benfeitorias dos senhores de engenho e o colocou como sujeito ativo no processo de construção da sua identidade social.

O mais engraçado é ver a galera se revoltando: "pra quê feriado em 20 de novembro? Isso é racismo!" - pra certos brancos (e até alguns negros), qualquer avanço social em termos étnicos é discriminação. Certo é deixar tudo como está. E quem não concorda é hipócrita.

Ai, meus sais...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Memória Seletiva

Uma das coisas mais engraçadas que aconteceram nos últimos tempos foi a campanha do PSDB para desqualificar o governo Lula por conta do... adivinhem... APAGÃO! rá rá rá

(Não tô falando de uma campanha subliminar, tô falando de comercial na tv, mesmo, assinado pelo PSDB e tudo. Tô com preguiça de procurar no Youtube. E, convenhamos, né? Nem precisa. Quem estava vivo no Brasil em 2001 sabe o ridículo da situação.)

sábado, 14 de novembro de 2009

Voz

Depois de uma tentativa FAIL de usar o gravador de voz do meu pc, lembrei que o mp3 player não serve só pra ouvir música...

Agora só falta ver como vou fazer pra disponibilizar o arquivo aqui. Ah, sim, e falta gravar alguma coisa. :)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Olha Como Eu Sou Simples!

Adoro celebridade que exige 100 toalhas brancas no camarim, depois vai visitar favela pra dizer que gosta de pobre.

Update: um amigo que trabalhou um tempo como garçom de buffet de luxo em São Paulo contou que a última moda em evento chique é botar escola de samba pra se apresentar, pra dizer que faz inclusão social. Começa a festa, entram os ricos, servem ostra, champanhe francês, entram os pobres, eles tocam, vão embora, continua a festa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ainda Bem que o Racismo Acabou!

domingo, 8 de novembro de 2009

Gabo e o Édipo Mal Resolvido

Adorei Memórias de Minhas Putas Tristes. Era exatamente o que eu esperava: uma leitura leve, agradável, mas sem cair em clichês.

O protagonista, conforme já foi muito divulgado, é um senhor que, no seu aniversário de 90 anos, resolve alugar uma noite de sexo com uma virgem e se apaixona. Até aí morreu Neves.

O diferencial é como se dá esta relação entre o casal. O homem está longe de ser um herói romântico: aposentado, classe média baixa, frio, sem nenhum histórico de vínculo amoroso e nenhuma relação sexual que não com prostitutas. Já a moça, não temos ideia de como seja, pois só é vista dormindo.

O enamoramento do velho, totalmente baseado na idealização, faz lembrar o conto da Bela Adormecida, estória que, de bela, não tem nada. É a mais romântica visão da transformação da mulher em objeto.

Paralelo ao caso de amor com a jovem prostituta, o protagonista fala de outro relacionamento: o dele com sua mãe. A mulher ocupa um pedestal na vida emocional do velho, formando assim um quadro totalmente coerente com os demais relacionamentos que o homem vem a estabelecer (ou não estabelecer) ao longo da vida.

Dizem que não há nada mais perfeito que o ser amado dormindo. E é fato: quando ele dorme, podemos transformá-lo no que quisermos: não tem defeitos, não faz besteira, não discorda, não agride. E é exatamente esse o retrato pintado por Gabo em Memórias de Minhas Putas Tristes: um homem de 90 anos que não cresceu, eternamente apaixonado pela mulher ideal. Ao menor sinal de deslize da moça, o nonagenário perde o controle e jura abandoná-la. Logo é convencido pelos amigos de que não foi um deslize, foi apenas coisa de sua cabeça.

Realmente, podemos resumir o livro assim: foi tudo coisa da cabeça dele.