Domingo minha crise de abstinência cinematográfica estava começando a bater e eu resolvi baixar alguma coisa pelo PC da minha mãe, mesmo. Ontem terminou de ser baixado A Festa da Menina Morta. Assisti à noite e já estou bem mais calma hoje.
Tenho tanta coisa pra comentar sobre o filme que não sei se vou ter pique pra escrever tudo de uma vez. Mas vamos lá.
A Festa... me chamou a atenção inicialmente pelo nome, que parecia filme de terror. Em segundo lugar, pelo diretor, o incrível Matheus Nachtergaele, que eu adoro.
Bem, de terror a película não tem nada, felizmente. É mais um daqueles filmes-realidade que eu adoro. Passa-se numa comunidade do Norte do Brasil, onde certa vez uma criança desapareceu. Tempos depois, um cachorro trouxe para um deles o vestido da menina, todo rasgado e ensanguentado. A garota nunca foi achada, mas o fato do vestido ter sido trazido pelo animal foi considerado um milagre, e desde então a pessoa que recebeu a roupa, personagem de Daniel de Oliveira, é conhecido como Santinho, tem "revelações", e uma vez por ano toda a comunidade se mobiliza para produzir a Festa da Menina Morta.
A estória começa na véspera da celebração, retratando todos os preparativos, e vai até o final da festa em si. Trata-se, na verdade, de um pretexto para abordar uma série de temas, como religiosidade popular, relações de poder, identidade cultural, etc.
Segundo a antropologia, uma das principais - senão a principal - característica do ser humano é a de atribuir significados. Outra, é a dificuldade em aceitar a própria finitude. Junta-se os dois elementos e nascem as religiões, os mitos, lendas, etc. Todo povo tem sua explicação sobre de onde viemos, como devemos agir e pra onde vamos, ou seja, um sentido existencial.
A Festa da Menina Morta retrata como um pequeno povo isolado no Amazonas, que recebe pouquíssima influência externa, acaba desenvolvendo essas características comuns a todos os grupos humanos. As pessoas são capazes de manipular uma história quase que banal - o aparecimento de um vestido - sem a menina - para criar fé, esperança e, acima de tudo, a ilusão de algum controle sobre os fatos da vida. A personagem de Dira Paes, logo no início do filme, tem uma fala muito significativa; algo como: "Eu sei que pode ser que minha filha não tenha sido curada pelo benzimento do Santinho. Pode ser que sim e pode ser que não. Mas o que custa ir lá, levar um presente, fazer um agrado?"
Ela sabe que a vida e a morte estão nas mãos do acaso - mas é difícil demais de aceitar que a qualquer momento qualquer um pode morrer ou adoecer gravemente. Então cria subterfúgios para negar essa realidade. Dali em diante, se a filha adoecer de novo, ela será benzida pelo Santo e curada.
Paralela a todo este cenário, há a estória de Santinho, um moço de trejeitos femininos insuportavelmente mimado, chegando a ser violento quando sua vontade não é feita. Ao longo do filme podemos entender o que o leva a ser assim, e como o fato de ter achado o vestido no dia em que sua mãe se suicidou veio a calhar para preencher duas lacunas: a do sentido existencial da comunidade e seu desejo de onipotência.
Houve muita polêmica pelo fato de ser um filme "forte" e, principalmente, por uma inofensiva cena de sexo. Sobre a cena em si eu nem tenho o que comentar. É uma cena, está totalmente dentro do contexto e é necessária para compreendermos melhor as personagens envolvidas. Quem se chocou com ela não deve ter visto filmes como A Última Ceia - este sim com uma longuíssima e desnecessária cena de sexo - nem o filme do diretor que é um dos ídolos de Nachtergaele, Baixio das Bestas, que basicamente é violência sexual do começo ao fim. Enfim, gente que fica corada ao dizer "bumbum" só devia ir ao cinema pra ver filme da Xuxa. Ah, sim, um que não seja Amor Estranho Amor.
Já outras cenas, sim, incomodam. **SPOILER** Particularmente, posso citar o diálogo entre Santinho e Tadeu ao som da morte do porco; o close nos insetos; a galinha sangrando. Além disso, o ritmo do filme é um pouco arrastado, o que me incomoda também. **FIM DO SPOILER** Mas, no meu entendimento, esses elementos tem um porquê muito claro: nos transportam para a realidade que se passa lá. Matar um bicho para comer, para nós, que compramos tudo embaladinho no supermercado, pode ser o cúmulo do desagradável. Para milhares de pessoas soltas nesse mundão que é o interior do Brasil (e de muitos outros países), é questão de sobrevivência. E como tudo o que é necessário para a sobrevivência do ser humano, torna-se natural. Aliás, podemos dizer que este, sim, é o natural. Não tem nada de natural comprar frango desossado no mercado. A convivência com insetos é natural. Usar repelente é anti-natural. Passar boa parte do dia olhando a paisagem e jogando conversa fora é natural. Passar boa parte do dia produzindo coisas inúteis para vender e poder comprar outras coisas inúteis não é natural. E de repente tudo que é mais natural no ser humano virou bizarro pra gente: chato, cansativo, entediante. (Inclusive pra mim, isto é uma crítica e uma auto-crítica).
Além de todas essas reflexões, chama a atenção a conjuntura familiar de Santinho, assunto que deixarei pra outro post.