Aos poucos venho traçando o perfil de filme que mais me agrada. Sempre fui bem eclética: gosto de clássicos hollywoodianos, alternativos moderninhos, diretores consagrados como Almodóvar, Hitchcock, Bergman, Kubrick, cinema iraniano, brasileiros de baixo orçamento, brasileiros de grande orçamento, estórias leves e bem contadas como Amélie Poulain, etc.
Mas ultimamente venho desenvolvendo gosto por um determinado tipo muito específico: o que me faz mal. Não por ser ruim, óbvio, porque aí era só ficar atenta aos campeões de bilheteria e eu teria diversão garantida; mas aqueles que são excessivamente realistas ao tratar de situações-limite, que mostram o pior do ser humano. Como bem definiram os Garotos Podres, em sua música "Oi, Tudo Bem?": "a decepção de ontem, a decepção de hoje e a desesperança crônica do amanhã".
Essa preferência não é de agora. Quando era criança, meu filme preferido era "A Lista de Schindler". Não dá pra explicar o prazer que vem da angústia de saber que aquilo foi real, pensar o que eu faria, diria ou sentiria na pele daquelas pessoas. Imagino que seja a sensação que um masoquista tem ao sentir o chicote rasgando sua pele.
Hoje em dia, porém, venho me aprimorando e o filme do Spielberg fica ao lado de "Ursinhos Carinhosos" na minha escala de mal-estar. Confira minhas recomendações:
Caminho Para Guantánamo (The Road to Guantanamo, Inglaterra, 2006). Quatro jovens ingleses de descendência paquistanesa viajam ao Oriente Médio e são acusados de terrorismo. São presos pelos americanos e, após sofrerem acusações e castigos no próprio Paquistão, são levados para Guantanamo, onde permanecem por dois anos e meio tentando provar inocência. Terrivelmente, assustadoramente e dolorosamente real.
O Dia Seguinte (The Day After, EUA, 1983). O filme foi feito na época em que a expectativa de um ataque nuclear a algum dos países envolvidos na Guerra Fria era real. No filme, EUA e Rússia se atacam ao mesmo tempo com bombas atômicas de baixa potência, causando catástrofes irreparáveis nos dois países. O Dia Seguinte se passa nos EUA, mas fica longe de ser partidário na guerra: mostra o quão horrível seria - para ambas as partes - se aquela possibilidade se concretizasse. Gente vivendo em precários abrigos subterrâneos, famílias separadas, terra estéril, danos físicos de todos os tipos, e o pior de tudo: a sobrevivência das baratas.
Réquiem Para Um Sonho (Requiem For a Dream, EUA, 2000) conta a estória de quatro viciados que, como todos os viciados, vivem em função de sua droga; passam pelas piores torturas e humilhações para consegui-la e têm todas as outras áreas da sua vida esvaziadas. É inevitável que o espectador trave uma concorrência mental para eleger o mais e o menos sofrido da película - mas não há consenso.
Menção Honrosa:

Vá e Veja (Idi i Smotri, União Soviética, 1985). De longe, muito longe, o mais realista dos filmes-sofrimento. O personagem central é um menino bielorrusso que quer se aliar ao exército soviético para ajudar a derrotar o nazismo durante a Segunda Guerra. Sua família quer que ele permaneça em casa, mas ele não obedece e passa pelo mais dolorido processo de amadurecimento. A criança que interpretava o protagonista teve que ser hipnotizada para não sofrer danos psicológicos irreparáveis. O diretor viveu sua infância na guerra, e garante que aquilo é só uma tentativa frustrada de mostrar um pouquinho do que era o horror da época.
Estas são as dicas cinematográficas para quem quer passar mal no final de semana.


